O Zé Lacerda, da Fundação Certi, me entrevistou para um projeto de mapeamento de tendências tecnológicas. O tema foi a usabilidade de computadores em 2015. Abaixo, minhas especulações. Se você estiver lendo em 2015 pode estar rindo de muita coisa
1. Numa visão geral, como será o computador no ano de 2015?
Como é tempo próximo, intensificação de tendências atuais: móvel, pequeno, leve, sempre conectado, sempre pronto para o uso (instant-on), relativamente barato.
2. Na sua opinião, até 2015 haverão mudanças significativas na interação homem-máquina, como novos dispositivos de interação e novas interfaces?
Basicamente, não.
- “perto” no tempo, num cenário normal pouca mudança
- no cenário atual, o fator “crise” pode ou não influenciar: duas argumentações: 1. Grande efervescência, darwinismo mais intenso, muita gente dedicada e com tempo, diferenciação para conseguir investimento. 2. Falta de investimento, estagnação.
Interface=tarefas+contexto+dispositivo -> ubuntu para netbook da HP (interface especializada para contexto e dispositivo – móvel exige agilidade, fácil acesso a elementos, objetos grandes na tela; e dimensões e resolução da tela exigem racionalização do uso do espaço na tela)
3. Considerando os seguintes sensores: acelerômetro, posicionamento global (GPS), reconhecimento de voz, reconhecimento de rostos e reconhecimento de gestos, quais têm possibilidade de se tornarem elementos comuns num PC popular nos próximos anos?
Como já aparece na formulação desta questão, a principal fonte de inovação atual são as plataformas móveis. Uma das coisas que acontece é incorporar como padrão o que até então eram add-ons e novidades como gps, acelerômetro.
Acelerômetro -> sim, mas apenas para dispositivos que se confundem em dimensão com controles manipuláveis no espaço. Custo baixou muito. Sao divertidos, tem fator “uau!” e as vezes genuinamento uteis, como na rotacao de tela.
GPS – em plataformas móveis fazem sentido virar padrão. Geotagging e uso em redes sociais que mesclem relacoes virtuais e presenciais, ecommerce, alem da obvia orientacao para se chegar em algum lugar.
Reconhecimento de voz – Não, já tivemos outras tentativas. Talvez para pesquisa on-the-go, onde o contexto de uso não permite/favorece digitação. Senão, pode ser apenas uma moda. Temos resistência a falar com coisas.
Reconhecimento de gestos – principal aplicação do multitouch (ver resposta 4). Sim, limitada.
4. O uso de interfaces de toques múltiplos (multitouch) popularizou-se com a introdução do iPhone e começa a fazer parte de outros dispositivos (telas de desktops, notebooks, surface). Na sua opinião essa é uma tendência que se consolida para 2015?
O fato de ser multitouch não foi necessariamente o que diferenciou o iphone. Acredito que muito mais o fato de ser uma interface capacitiva(?) e não por pressão (responde mais facilmente ao dedo), responsiva, atraente esteticamente, boa usabilidade para tarefas simples e divertida – é o que responde pelo sucesso do iPhone.
O multitouch na forma atual permite alguns gestos, normalmente com dois dedos. São relativamente pouco usados mesmo no iphone. Isso deve se consolidar, mas grandes interfaces multitouch com uso de duas mãos ou mesmo de vários usuários ao mesmo tempo devem ter aplicação bastante restrita, apesar de serem apropriadas a alguns contextos, como jogos e colaboração.
O principal é aumentar o poder de expressão do canal pelo qual comunicamos nossas intenções ou manipulamos um espaço virtual. Uma comparação atual é o que os cliques e arrastadas do mouse atual seriam como grunhidos dos homens das cavernas e que isto deveria/precisaria evoluir. Não sei exatamente como me posicionar, mas claro que a “metáfora” usada de objetos e sua manipulação direta se presta a gestos análogos aos físicos de manipulação (pinch/beliscar no iphone, girar) – mas mesmo isto apesar de estender o canal e tornar mais direto, tem limites de aplicação. Gestos comunicando intenções mais abstratas seriam interessantes.
Em outros modelos de interface como uma conversacional nosso canal de entrada poderia ser mais simbólico ou até mesmo em linguagem natural. A questão é “para que?” – que tarefas seriam mais apropriadas neste modelo?
5. Na sua opinião, os computadores serão desenvolvidos para aplicações especializadas ou continuarão sendo equipamentos mais genéricos, integrados a outros dispositivos com aplicações específicas?
Já existe uma reflexão sobre vantagens/desvantagens de dispositivos dedicados versus dispositivos genéricos.
Uma das principais vantagens citadas dos dedicados tem justamente a ver com usabilidade: como só fazem uma coisa, essa coisa é suportada de forma direta. Por isso videogames, câmeras digitais, celulares, e assim por diante.
Os genéricos tem outras vantagens, como portabilidade (carregar um só dispositivo), custo total, integração entre aplicações e até de usabilidade pelo aprendizado de um dialeto de interação e reuso em diferentes aplicações.
Existe até o caminho reverso, dos dispositivos dedicados se generalizarem, mantendo uma função básica bem resolvida: Wii/XBox 360/PS3 com browser, central de mídia, serviços de compras de filmes e músicas, comunidades virtuais. GPS com browser, tocador de mp3.
O iphone talvez seja uma primeira resposta intermediária, ao virtualizar dispositivos dedicados em um dispositivo genérico com compromissos razoáveis. Estão ali o internet tablet, o ipod, o celular, o videogame portátil. E nisso ajuda ter poucos botões físicos.
Computadores devem continuar no mesmo nível de “genericidade” de hoje até 2015, devendo suportar minimamente tarefas de acesso a internet/browser/comunicação interpessoal, e aplicações básicas de produtividade.
6. De que forma a tendência crescente de popularização dos ambientes de socialização e colaboração na Internet (wikis, redes sociais etc.) influencia a interface desses sistemas?
Idealmente considerar que usuário já vive nas redes e trazer isto de forma integrada. Existe pouca coisa ainda, como a interface do Palm Pre que diz integrar as redes virtuais no uso das aplicações, como contatos, compartilhamentos. Existe um atributo de “sociabilidade” (Jenny Preece) que assim como a usabilidade deveria ser levado em conta no projeto dos dispositivos e suas interfaces.
